Leituras recentes de Rick Riordan

Rick Riordan divulgou no blog Myth & Mystery um post falando das suas leituras recentes. Confira:

Leitura é fundamental para colocar a cabeça no lugar quando você é um escritor. Meu primeiro conselho para jovens escritores sempre é “Leia muito!” Explorar outros estilos e gêneros ajuda você a ser um bom contador de histórias. Felizmente, eu tive a chance de ler alguns excelentes livros recentemente. Com esses relatórios, pode parecer que eu gosto de todos os livros que leio. Isso não é verdade. Se eu leio algo que não gosto, eu não irei mencioná-lo aqui. Eu acho que já temos muitas críticas ruins por aí. No entanto, fico sempre muito feliz em dividir os livros que me divertem.

Aqui estão meus últimos achados, alguns para adultos, alguns para crianças e outros para ambos!

Imagine um mundo onde ilhas de terra firme são cercadas por mares de poeira  inconstante, areia e gelo, tudo isso infestado de perigosos predadores subterrâneos – toupeiras gigantes, leões-formigas e claro os temidos ratos-toupeira pelados. A única forma de atravessar esse mar de barro é um labirinto de redes de trilhos, construídos e mantidos por misteriosos seres chamados Anjos.

No RAILSEA, homens viajam de trem, e bravos caçadores de toupeiras zarparam para caçar o gigante moldywarpe (uma topeira gigante). Nosso herói, Sham ap Soorap, acabou de subir a bordo do expresso dos caçadores, o trem Medes, como assistente de médico. A capitã do trem, como todos os capitães, tem sua própria “filosofia” – ela está obsecada em encontrar e matar uma toupeira gigante cor de marfim, Mocker- Jack, que anos antes levou seu braço. No entanto, quando os Medes se deparam com um segredo proibido nas ruínas de um antigo desastre de trem, Sham percebe que há missões mais importantes e perigosas do que a busca pela toupeira marfim gigante.

Sim, é uma re-imaginação de Moby Dick, com trens e toupeiras em vez de navios e baleias. Se isso soa ridículo, é parte do apelo do livro. Apenas Mièville poderia ter essa ideia absurda, tratá-la como séria, e levá-la para criar uma história atraente, confiável e hilária. Railsea é classificado como uma história “para todas as idades”, e essa é uma descrição adequada. Não é um livro para todos. Você tem que estar disposto se levar pelo conceito e se jogar num ambiente bizarro, mas quanto mais distorcida é sua imaginação, mais a história irá agradar você. Quanto mais você lê, mais difícil é de largar.

Eu amei o livro anterior de Mièville para jovens leitores, Un Lun Dun, e Railsea é melhor ainda. Eu ri em voz alta. Torci por nosso bravo heróis Sham. Eu estava preso no incrível mundo de construção e do mistério central que finalmente nos leva para o fim dos trilhos, literalmente, onde achamos a verdade sobre os Anjos. Se você leu Moby Dick, Railsea será agradável (muito mais, na minha humilde opinião, do que Moby Dick — blech). Porém, o conhecimento de Melville não é essencial para apreciar Mièville. Essa é uma fanfarrona aventura steampunk com muito amor e humor.

Há muitos livros de fantasia infanto-juvenil por esses dias. Você pensaria que seria difícil trazer algo novo ao conceito, mas Leigh Bardugo faz isso parecer fácil. Seu livro de estreia Shadow and Bone pega o folclore e mitologia Russos e cria uma Rússia czarista alternativa (Ravka) onde mágica e poder militar coexistem desconfortavelmente. Imagine um cruzamento ente Graceling de Cashore e Leviathan de Westerfeld… E ainda assim Shadow and Bone é único.

Nossos personagens principais, Alina e Mal, crescem como órfãos na propriedade de um duque gentil, até chegar a hora de servirem seu país. Ambos são testados pelo Grisha, uma ordem antiga e poderosa de magos, mas não mostram aptidão, então Mal se torna um talentoso rastreador militar, enquanto Alina estuda como uma cartógrafa do exército e não tem nada para esperar ansiosamente, além de uma existência mundana. Caseira e magricela, Alina assiste ao seu arrojado e lindo amigo Mal, por quem ela tem um amor secreto, receber a atenção de todas as garotas.

Suas vidas mudam quando seu regimento é enviado através da Shadow Fold, uma fenda mortal de escuridão que corta Ravka em duas, separando a capital do leste dos seus portos na Ravka oeste. Quando a caravana é atacada por gárgulas parecidas com monstros, chamadas volcra, Alina descobre poderes que não sabia que tinha. Imediatamente, ela se torna a pessoa mais importante do reino, se tornando alvo dos assassinos inimigos, e é levada ao palácio de Darkling, o chefe da Grisha e mão direita do rei, para aprender os caminhos da mágica. Alina pode guardar o segredo para destruir a Shadow Fold e salvar Ravka, mas apenas se ela sobreviver aos seus inimigos – alguns de outros países, alguns do próprio reino.

Shadow and Bone funciona em todos os níveis. É romance acreditável e pungente. É um grande mistério em que os vilões e heróis não são todos quem parecem ser. É uma aventura de primeira nível. Talvez eu fora especialmente atraído para este livro porque eu visitei a Russia no verão passado e posso facilmente imaginar a Grisha deslizando pelos corredores do Palácio de Inverno, mas suspeito que o livro irá agradar à muitos leitores, mesmo que não tenham conhecimentos sobre a história Russa. Estarei esperando ansiosamente pelo segundo livro da série!

Uma nova visão sobre a Ilíada, escrita por uma professora escolar clássica – como eu poderia não ler isso? The Song of Achilles reconta a história do maior herói da Grécia, do ponto de vista de seu melhor amigo, Patroclus. Enquanto permanece fiel às lendas gregas e as obras de Homero, Miller preenche as lacunas de forma criativa e convincente, dando a Patroclus uma história por trás que faz todo sentido, e traçando a amizade, e um eventual romance, entre os dois jovens de uma maneira que lança uma nova luz sobre o lado humano da Guerra de Tróia.

Sempre achei Aquiles um personagem antipático – um moleque, um valentão, um idiota cabeçudo que sabe que é a estrela do time e tem um ataque de raiva se é colocado no banco. Miller mostra suas qualidades pouco atraentes, mas ela também mostra que Aquiles é humano. Ele é capaz de amar. Ele está em profundo conflito. Ele tem senso de humor e um lado gentil. O vemos através dos olhos de Patroclus, crescendo de uma criança privilegiada para um adolescente sensível, para um jovem adulto lutando para equilibrar seus sentimentos pessoais com as expectativas de um país inteiro. Se você leu a Ilíada, você sabe que a história terá um fim trágico, mas isso também é estranhamente animador e esperançoso. Nunca serei capaz de ler sobre esses personagens novamente do mesmo jeito, e isso é algo bom. Ler The Song of Achilles coloca uma nova luz na história antiga. Foi como assistir uma interpretação muito boa de uma peça de Shakespeare. Você acha que conhece a história, mas fica surpreso ao descobrir quantas camadas de um novo significado podem ser trazidas por uma produção inteligente.

O livro com certeza é apropriado para o público jovem e adulto. A prosa é elegante em sua simplicidade. Miller dá a Patroclus uma diretriz ao estilo Hemmingway. Eu li uma resenha do New York Times desse livro que acredito ser completamente injusta, reclamando que o estilo fez o livro parecer uma versão fast-food da Ilíada. Acho que isso perde o ponto de toda a história. A missão de Patroclus em The Song of Achilles é cortar a lenda de herói e nos mostrar o lado mortal do semideus. Ele não quer as metáforas pomposas e a hipérbole florida de uma guerra épica para enterrar as outras qualidades de Aquiles – sua ternura, insegurança, honestidade e falta de malícia. The Song Of Achilles pode servir como uma excelente introdução ou contraposição ao estudo da Ilíada. Isso certamente fez a história nova e vibrante para mim, apesar de ter lido Homero muitas vezes.

Fiquei decepcionado no passado com e-books auto-publicados. Alguns têm sido elogiados pela Amazon como histórias de grande sucesso, e acabam por ser malfeitos e mal escritos – um bom argumento é que escritores ainda precisam de editores, e editoras servem a um propósito importante para oferecer um grau de controle de qualidade básico.

WOOL não é bem esse tipo de livro. Não sei o que me atraiu a princípio. O título me deixou curioso, e estive lendo ficção científica recentemente. Decidi lhe dar uma chance, e estou feliz que fiz isso. Comecei com ansiedade, esperando o rangido de má redação ou pobre caracterização para me tirar da história, mas dentro de algumas páginas eu relaxei. Claramente, estava em boas mãos. Hugh Howey é um contador de histórias habilidoso. Ele conhece o ofício da escrita.

Entendo que WOOL OMNIBUS foi escrito em cinco partes, cada uma publicada como um curta para o Kindle. As sessões estão conectadas, e cada uma é maior que a anterior. O ponto de vista muda. (SPOILER) Como em The Game of Thrones, alguns personagens principais morrem apenas quando você está os conhecendo, o que dá ao leitor a impressão de que ninguém está seguro. (FIM DO SPOILER)

A premissa básica: a humanidade devastou a superfície do mundo, deixando cidades em ruínas, abandono interminável e uma atmosfera tóxica. Os únicos sobreviventes vivem no subterrâneo, uma sociedade fechada com um prefeito, um xerife, e um departamento TI sombrio que parece controlar tudo, incluindo a compreensão da população sobre a realidade fora. Câmeras oferecem uma visão do mundo exterior em monitores, deixando os habitantes ver o nascer do sol sobre o deserto e dissipar sua claustrofobia, mas as câmeras frequentemente ficam sujas por causa da atmosfera. Então a punição suprema: limpeza. Para muitos crimes, incluindo o ato proibido de simplesmente expressar o ato de sair, o condenado é colocado em uma roupa hermética e enviado em uma viagem só de ida para limpar as lentes das câmeras. Por alguma razão, o condenado faz o trabalho, não importa o quanto eles protestem. Dentro de minutos, no entanto, o processo piora e os condenados entram em colapso, tornando-se uma característica permanente da paisagem.

Tem muitos mais acontecendo do que o departamento de TI deixa saber, no entanto. Quando um novo xerife começa a explorar alguns segredos perigosos descobertos por seu antecessor, ela faz inimigos poderosos e atiça forças que podem começar uma guerra civil.

Os personagens são bem desenhados, e até mesmo os vilões tem um lado simpático. Segredos se revelam com apenas estimulação, e eu tinha que colocar meu e-reader pra baixo várias vezes e dizer: “Uau”, quando uma reviravolta importante era revelada. A estrutura da história, contada em cinco partes interligadas, faz WOOL ser diferente de um romance comum, e lhe dá profundidade extra, bem como as camadas do silo. Adorei especialmente a heroína mal-humorada, Juliette, que resiste a muitas tragédias e mostra coragem. E quem não pode se relacionar com um conceito de um departamento de TI organizado por vilões nefastos que deliberadamente sabotam a troca de informação? Se você está procuando por uma boa leitura pós-apocaliptica, você não achará melhor do que WOOL. É destinado a adultos, mas é completamente adequado para leitores juvenis.

Tenho que respeitar um escritor formado em Harvard que decide desafiar as expectativas e escrever um romance zumbi. Acho que isso pede muito estômago (trocadilho ruim, desculpe), bem como cérebro (ok, vou parar agora.)

Zone One de Colson Whitehead segue as aventuras de um protagonista conhecido apenas por seu apelido, Mark Spitz. Explicar por que ele é chamado desse jeito iria estragar um pouco da diversão. Depois de um apocalipse zumbi, os sobreviventes humanos estão tentando recuperar a ilha de Manhattan. Fuzileiros navais limparam a maior parte dos mortos-vivos do município e criaram muros em volta da grade, Zone One, mas Mark Spitz e seus companheiros são acusados de destruir os retardatários para tornar a ilha segura para a reinstalação.

Seguimos Spitz ao longo de um fim de semana, com flashbacks frequentes de seu passado – da última noite, o começo da praga zumbi, seus dias durante a sobrevivência no deserto, e finalmente sua ligação com os outros sobreviventes que estão demorando para ler levados para campos com o nome de Happy Acres. A nova burocracia americana surgiu em Albany e não demorou nenhuma hora para implementar regras ridículas: sem inclusões para o abastecimento, a menos que as fontes sejam aprovadas por um dos patrocinadores oficiais do governo. Sem quebrar janelas ou causar danos materiais enquanto luta com zumbis, já que os edifícios terão de ser reocupados. A máquina de propaganda do governo está em pleno andamento, desde músicas vigorosas para o renascimento da Fênix Americana, um fluxo constante de boas notícias sobre um conjunto de trigêmeos nascidos e um modelo lutador de zumbi italiano, e até mesmo cadernos patrocinados pelo governo de uma companhia que faz a mercadoria das crianças sobre um desenho animado de tatus e seus amigos fofos, perfeitos para fazer anotações enquanto zumbis te matam a cada dia!

Quanto mais tempo passamos com Spitz, mais sentimos seu desconforto com o caminho que a sociedade está tomando. Começamos a suspeitar que as coisas não são tão perfeitas como as pessoas em Albany relatam. Começamos a perguntar: Qual preferiríamos: um retorno à “civilização” com os patrocinadores corporativos e canções temas, ou uma vida no deserto infestado de zumbis?

O romance não é simples e direto, narrativa plot-driven. Você não deveria esperar 28 Days Later ou The Walking Dead. A história é contada ao longo de três dias, mas é principalmente sem ordem cronológica, pulando de frente para trás, do passado para o presente, saboreando as hisórias de personagens diferentes e revelando a vida de Mark Spitz em uma série de vinhetas. Isso soa como um cruzamento entre Joseph Heller e Kurt Vonnegut, ambos escritores que teriam apreciado o humor negro e os absurdos comoventes que infundem em Zone One.

Não é a praia de uma leitura fácil por qualquer meio, mas vale bem a pena seu tempo. Me peguei pensando sobre este livro semanas depois de ler ele, pensando sobre Mark Spitz e o que eu teria feito em seu lugar.

E esses são os mais recentes! Agora, voltarei a escrever. Feliz leitura de verão para todos!

Fonte: blog Myth & Mystery

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