Mais um trecho de O Trono de Fogo

Foi publicado mais um trecho do segundo livro da coleção As Crônicas dos Kane, O Trono de Fogo.

O Ponto de Vista de Sadie

Com todos tomando café, a mansão estava estranhamente silenciosa. Cinco níveis de sacadas encaravam a Grande Sala, então o lugar normalmente estava um alvoroço de barulho e atividade; mas eu me lembrava de quão vazia ela parecia quando eu e Carter chegamos lá pela primeira vez no Natal passado.

A Grande Sala ainda tinha muitos dos mesmos toques: a enorme estátua de Tot no meio, a coleção de Amós de armas e instrumentos de jazz pela parede, o tapete de pele de cobra em frente à lareira com o tamanho de uma garagem. Mas dava para notar-se que agora vinte jovens mágicos viviam aqui. Uma mistura de controles remotos, varinhas, iPads, embalagens de lanches e estatuetas shabti se acumulavam na mesa de centro. Alguém com grandes pés – provavelmente Julian – deixou seus tênis enlameados na escada. E um dos nossos valentões – eu suponho que Felix – magicamente converteu a lareira em um paraíso Antártico completo, com neve e um pingüim vivo. O Felix ama pingüins.

Esfregões e vassouras mágicos corriam pela casa, tentando limpá-la. Eu tive de me agachar para não ser varrida. Por algum motivo, os espanadores pensam que meu cabelo é um problema de manutenção. [Sem comentários vindos de você, Carter.]

Como eu esperava, todos estavam reunidos na varanda, que servia como nossa área de jantar e habitat do nosso crocodilo albino. Felipe da Macedônia nadava alegremente pela sua piscina, pulando por fatias de bacon sempre que algum novato lhe jogava alguma. A manhã estava fria e chuvosa, mas o fogo no braseiro mágico do terraço nos mantinha aquecidos.

Eu peguei um pão de chocolate e uma xícara de chá da mesa de bufê e me sentei. Então eu percebi que os outros não estavam comendo. Eles estavam olhando para mim.

Na cabeceira da mesa, Amós e Bast me olhavam austeramente. Do meu outro lado da mesa, Carter não tinha tocado no seu prato de waffles, o que era muito estranho para ele. À minha direita, a cadeira de Jaz estava vazia (Amós me dissera que ela ainda estava na enfermaria, sem mudanças). À minha esquerda estava Walt, tão bem quanto sempre, mas dei meu melhor para ignorá-lo.

Os demais novatos pareciam estar em diferentes estados de choque. Eles eram uma mistura heterogênea de todas as idades, de todos os lugares do mundo. Um punhado era mais velho do que Carter e eu – velhos o suficiente para estarem na universidade, para falar a verdade -, o que era bom para acompanhar os mais novos, mas isto sempre me deixava um pouco desconfortável quando eu agia como sua professora. Os outros tinham mais ou menos entre 10 ou 15 anos. Felix tinha apenas nove. Havia ainda Julian de Boston; Alyssa, da Carolina; Sean, de Dublin; e Cleo, do Rio de Janeiro (sim, eu sei, Cleo, do Rio, mas eu não estou inventando!). A única coisa que todos nós tínhamos em comum era o sangue dos faraós. Todos nós descendíamos das linhagens reais do Egito, o que nos dava a capacidade natural para magia e para abrigar os poderes dos deuses.

O único que não parecia ter sido afetado por um humor severo era Khufu. Por razões que eu nunca entendi muito bem, nosso babuíno apenas comia alimentos que terminassem com a letra “o”. Recentemente, ele havia descoberto Jell-O [gelatina], para a qual ele olhava como se fosse uma substância milagrosa. Acho que a letra maiúscula O fazia tudo ser mais gostoso. Agora ele comia quase tudo revestido de gelatina – frutas, castanhas, insetos, pequenos animais. No momento, ele tinha sua cara enterrada em uma oscilante montanha vermelha de café da manhã e estava fazendo grosseiros barulhos enquanto escavava uvas.

Todo o resto me olhava, como se esperando por uma explicação.

– Bom dia. – eu murmurei. – Que dia agradável. Há um pingüim na lareira, se é que alguém se interessa.

– Sadie, – Amós disse gentilmente – conte a todos o que você me contou.

Beberiquei um pouco de chá para acalmar meus nervos. Então eu tentei não parecer apavorada enquanto contava minha visita aoHall das Eras (Hall of Ages).

Quando eu terminei, os únicos sons vinham do fogo crepitando nos braseiros e Felipe da Macedônia pulando na sua piscina.

Finalmente, Felix, de 9 anos, perguntou o que todos estavam pensando:

– Então todos nós vamos morrer?

– Não. – Amós sentou-se para frente. – Absolutamente não. Crianças, eu sei que acabei de chegar. Eu quase sequer conheci a maioria de vocês, mas eu prometo que faremos tudo o que pudermos para mantê-los em segurança. Vocês têm uma grande deusa do seu lado – ele apontou para Bast, que estava abrindo uma lata de Banquete Supremo e Luxuoso de Atum com as unhas – e a família Kane para protegê-los. Carter e Sadie são mais poderosos do que vocês podem perceber, e eu já lutei contra Michel Desjardins antes, se chegarmos a isso.

Considerando todos os problemas que tivemos no Natal passado, o discurso de Amós parecia de um otimismo infantil, mas os novatos pareciam aliviados.

– Se chegarmos a isso? – Alyssa perguntou – Parece bastante certo que eles vão nos atacar.

Amós uniu as sobrancelhas:

– Talvez, mas me preocupa que Desjardins fosse concordar com uma atitude tão tola. Apófis é o verdadeiro inimigo, e Desjardins sabe disso. Ele deveria perceber que ele precisa de todo o apoio que conseguir. A não ser que…

Ele não terminou a frase. Seja o que for que ele estivesse pensando, perturbava-o enormemente.

– De qualquer forma, se Desjardins decidir vir atrás de nós, ele planejará cuidadosamente. Ele sabe que esta mansão não cairá facilmente. Ele não pode se permitir ser humilhado pela família Kane novamente. Ele vai estudar o problema, considerar suas opções e reunir suas forças. Vai levar alguns dias para ele se preparar – tempo que ele deveria usar para parar Apófis.

Walt levantou o dedo indicador. Eu não sei o que se passa com ele, mas ele tem uma espécie de gravidade que captura a atenção de todos quando ele está para falar. Até Khufu levantou os olhos de sua gelatina.

– Se Desjardins de fato nos atacar, – Walt disse – ele vai estar preparado com mágicos bem mais experientes do que nós. Ele pode atravessar nossas defesas?

Amós olhou para as portas de vidro deslizantes, provavelmente relembrando a última vê que nossas defesas foram rompidas.

– Nós temos que nos certificar de que não se chegue a isso. – ele disse. – Desjardins sabe o que nós estamos tentando fazer e nós só temos 5 dias (bem, 4 agora). De acordo com a visão de Sadie, Desjardins sabe do nosso plano e vai tentar preveni-lo de acordo com uma crença errônea de que nós estamos trabalhando para as forças do Caos. Mas, se formos bem-sucedidos, teremos poder de barganha para fazer Desjardins recuar.

Cleo levantou a mão.

– Nós não sabemos o plano… Quatro dias para fazer o quê:

Amós apontou para Carter, convidando-o a explicar. Tudo bem para mim. Honestamente, eu achava o plano um pouco maluco.

Meu irmão se levantou. Eu devo lhe dar crédito. Nos últimos meses, ele progrediu no que diz respeito a parecer um adolescente normal. Depois de 6 anos sendo ensinado em casa e viajando com o Papai, Carter estava incorrigivelmente fora de moda. Ele se vestia como um executivo júnior, com camisas super brancas e calças sociais. Agora, pelo menos ele aprendeu a vestir jeans e camisetas e, ocasionalmente, um moletom com capuz. Ele deixou seu cabelo crescer até se tornar uma confusão de cachos – o que ficou muito melhor. Se ele continuasse melhorando, o garoto até poderia arrumar um encontro um dia.

[O quê? Não me cutuque! Foi um elogio!]

– Nós vamos acordar o deus Rá. – Carter disse, como se isso fosse tão fácil quanto pegar um salgadinho da geladeira.

Os novatos se entreolharam. Carter não era conhecido pelo seu sendo de humor, mas eles deviam estar imaginando se ele estava brincando.

– Você quer dizer o deus do Sol. – Felix disse. – O antigo rei dos deuses.

Carter assentiu.

– Todos vocês sabem a história. Há milhares de anos atrás, Ra ficou senil e se retirou para os céus, deixando Osíris no comando. Então Osíris foi derrubado por Set. Depois Hórus derrotou Set e se tornou faraó. Depois…

Eu tossi.

– A versão curta, por favor.

Carter me deu um olhar atravessado.

– O ponto é que Rá foi o primeiro e mais poderoso rei dos deuses. Nós acreditamos que Ra ainda está vivo. Ele apenas está adormecido em algum lugar bem profundo no Duat. Se nós pudermos acordá-lo…

– Mas se ele se retirou porque estava senil – Walt disse -, isso não quer dizer que ele está muito, muito senil agora?

Eu perguntei a mesma coisa quando Carter me contou sua idéia pela primeira vez. A última coisa de que precisávamos era um deus todo-poderoso que não podia lembrar seu próprio nome, que cheirava à gente velha e que babava enquanto dormia. E como um imortal poderia ficar senil, afinal?

Amós e Carter olharam para Bast, o que fazia sentido, já que ela era o único deus egípcio presente.

Ela franziu as sobrancelhas diante de seu Banquete de Luxo intocado.

– Rá é o deus do Sol. Nos tempos antigos, ele envelhecia conforme o dia passava, depois navegava pelo Duat no seu barco a cada noite e renascia com o nascer do Sol a cada manhã.

– Mas o Sol não renasce. – eu respondi. – É só a rotação da Terra…

– Sadie. – Bast me advertiu.

Certo, certo. Mito e ciência são ambos verdade, simplesmente diferentes versões de uma mesma realidade, blá blá blá. Já ouvi esse sermão cem vezes, e eu não queria ouvi-lo de novo.

Bast apontou para o pergaminho que eu tinha deixado ao lado da minha xícara de chá.

– Quando Rá parou de fazer sua jornada noturna, o ciclo foi quebrado e Rá caiu em um permanente crepúsculo, pelo menos é o que pensamos. Ele pretendia dormir para sempre. Mas se você puder achá-lo no Duat (e esse é um grande “se”), é possível que ele possa ser trazido de volta e revivido com a magia certa. O Livro de Rá descreve como isso pode ser fito. Os sacerdotes de Rá criaram este livro nos tempos antigos e o mantiveram em segredo, dividindo-o em 3 partes, somente para ser usado se o mundo estivesse acabando.

– Se… o mundo estivesse acabando? – Cleo perguntou. – Você quer dizer que Apófis realmente vai… engolir o Sol?

Walt olhou para mim.

– Isso é realmente possível? Na sua história sobre a Pirâmide Vermelha, você disse que Apófis estava por trás do plano de Set de destruir a América do Norte. Ele estava tentando causar tanto caos que poderia se libertar de sua prisão.

Eu tremi, lembrando da aparição no céu sobre Washington D.C.: uma serpente gigante se contorcendo.

– Apófis é o verdadeiro problema. – eu concordei. – Nós o paramos uma vez, mas sua prisão está enfraquecendo. Se ele conseguir escapar…

– Ele vai. – Carter disse. – Em quatro dias. A menos que consigamos pará-lo. E então ele destruirá a civilização, tudo que os humanos construíram desde a ascensão do Egito.

Isso causou calafrios na mesa de café.

Fonte: TheKaneChronicles.com

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